segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Morte do pai, fim das regras, zero na educação familiar.

Ezivandro Santos
Crianças a solta nas ruas, desorientadas. Adolescentes envolvidos em atos ilícitos. Jovens como manchete de jornal, protagonizando homicídios, inclusive de pais ou namoradas. Até nas escolas os episódios de barbárie se repetem. Algumas pessoas atribuem como fatores a tais ocorrências a forma branda como a lei se impõe (o Estatuto da Criança e do Adolescente, sobretudo). Muitas acusam a desqualificação dos professores e a falência da instituição escolar na socialização dos mais novos. Outros acusam o Estado, a mídia e a sociedade de, em suas permanentes exibições de truculência, incentivarem os mais novos a reproduzirem ao que assistem. Nós aqui nos deteremos em avaliar que tarefas cabem às famílias em tal contexto e de que forma a diluição familiar pode estar contribuindo para tais violências envolvendo infanto-juvenis.
A ausência da função paterna
Estudiosos da alma humana destacam o exercício de duas funções na formação de nossas personalidades, quais sejam: a função paterna e a função materna que durante nossa infância consolidam nossos conteúdos internos mais significativos. Mas o que seria a função paterna e por que se fala de sua ausência? Antes, precisamos entender o que é a função materna: atitudes em ralação a criança no sentido de ouvi-la, acolhê-la, dar carinho, atenção e colo. Já a função paterna é exercida com mais dureza: exige maturidade, apresenta as cobranças sociais (Estude! Trabalhe! Vá à luta! Não se acomode! Você tem que aprender a conquistar com seu próprio esforço...), impõe limites (Não vais fazer assim! Não temos condições financeiras pra isso! Nós não admitimos isso na nossa família!). É essa cobrança por obediência às regras que tem sido ausente nas famílias. O não aprendizado na infância para que se conviva com limitações impostas, com as adversidades da vida, com a necessidade de tolerância e esforço para conquistas pessoais, resultariam nas atitudes de crise das novas gerações com as atuais convenções sociais (Regras, leis, tradições, valores, princípios que a sociedade tem por justos).
É somente o pai quem exerce a função paterna? Não. Essa função pode ser exercida por pessoas de qualquer alinhamento parental ou sexo, desde que componha o núcleo familiar: um tio ou tia, avó, irmão mais velho, madrinha, padrasto, prima. Por vezes, a mãe exerce a função paterna, e vice-versa – isso depende do perfil psicológico de cada um. Em outras ocasiões a mãe exerce as duas funções. Não há prejuízo, portanto, para formação da personalidade das pessoas, a ausência de uma pessoa do sexo masculino (o pai) ou feminino (a mãe) durante a educação dos infantos. É possível inclusive que tais referenciais sejam encontrados em um vizinho, professor ou um amigo da família por quem a criança tenha apreço, admiração e afeto.
Auto-reflexão: Quem na minha formação teria exercido mais claramente a função paterna, me disciplinando? Na formação da minha personalidade, qual função, materna ou paterna, teria me marcado mais? Ao exercer uma dessas funções, com qual delas eu me identifico mais?

O medo de dizer não e suas consequências
Os pais temem, hoje, dizer não aos filhos. E quando o fazem, não tardam em ceder. Nossa sociedade foi tomada pelo princípio do prazer absoluto e ininterrupto, onde querer intervir negativamente na educação das crianças, soa como ameaça de traumas, autoritarismo e rende título de tradicional. Todos almejam ser “modernos”, demonstrar total proximidade com os mais jovens e vivenciar uma relação harmoniosa, romantizada com seus filhos. Esquece-se que com conflitos se cresce. A vida é composta também de adversidades e desde cedo devemos aprender a encará-las e nos fazermos psiquicamente robustos para superá-las. As consequências de uma educação na infância em que sempre se diz “sim” e tudo é dado, sem necessidade de esforço é, na vida adulta, um raquitismo psíquico em que se perdem em stresses e depressões, ou em rebeldias contra tudo e contra todos, por não se ter capacidade de enfrentamento da realidade ou falta habilidade emocional para construir alternativas aos problemas cotidianos. Dizem: “O moleque, quando não encontra quem lhe eduque em casa, encontrará disciplina no cassetete do policial”.
Muitos sujeitos, educados para o prazer (nunca para peitar os limites e a dor), acomodados na eterna satisfação de suas necessidades, não tolerarão as regras institucionais: fidelidade conjugal, disciplina e empenho escolar, exigências trabalhistas – isso os fará querer trocar de família, escola e emprego, permanentemente. Vigora certa cultura do atendimento dos direitos individuais, em detrimento das obrigações institucionais. Nesse contexto, ganha força: o malandro, o adulto infantilizado, o esperto trapaceiro, o imprudente, o delituoso inconsequente. Nada parece ser capaz de deter a impetuosa busca de satisfação de impulsos ante-sociais. Os desafios que ridicularizam a inoperância da segurança pública demonstram ter raízes nesse novo ordenamento social e na fragilização das famílias disfuncionais, por falta de quem exerça, sobretudo a função paterna.
Auto-reflexão: Eu consigo recordar de alguma família onde falta alguém que exerça a função paterna? Quais as características de um grupo familiar onde faltam a disciplina e a colocação de limites? O que eu julgo ser necessário dizer a quem reage aos limites com rebeldias agressivas ou com comportamentos depressivos?

Família, lugar de crescimento com disciplina e afeto
Não cabe à família, isoladamente, conter a imensa avalanche de nosso desordenamento social. Contudo, não há perspectivas de paz social sem que existam um Estado cumpridor de suas obrigações sociais, uma escola participativa e a serviço da comunidade, e a família, com toda a sociedade, assumindo cada um, o seu quinhão na construção dessa sociedade de homens e mulheres livres e solidários. Será na família – mas não somente nela - que se construirão a personalidade e os valores desse novo ser.
Que pistas seria possível percorrer para que as famílias dêm essa contribuição desejada? Não existem receitas, nesse sentido. Cada família tem sua história e está inserida num contexto concreto. Porém vale a pena pensarmos como que ela tem se organizado nos seguintes aspectos:
Biologicamente: Cultiva-se a observância de regras para higiene pessoal e da residência? Há cobrança de horários para fazer refeições, dormir o necessário (e apenas o necessário) e tomar banho? Existe instrução e zelo para que se cuidem das exposições a riscos de acidentes, doenças e bons hábitos alimentares?
Afetivamente: Ensina-se bons modos para com os outros? (respeitar os mais velhos, ser fraterno com os irmãos, solidário com os colegas, obediente aos pais...). Cuidar de animais e plantas como seres vivos? Permite-se a livre expressão dos pensamentos e sentimentos para que se reflita, em família, sobre o que é bom e o bem? Fala-se e vivencia-se o amor como forma de abastecer os filhos de confiança e afeto?
Economicamente: Permite-se que os mais novos administrem recursos materiais (dividir um pão, um bolo, uma fruta para todos) ou financeiros (semanada, mesada ou outro montante para que gaste de forma eficiente)? Planeja-se, com a participação das crianças, o orçamento familiar (seja uma meta anual, mensal ou que será comprado para o almoço)?
Socialmente: Discute-se com os filhos o modo correto como devem reagir às dificuldades ou oportunidades sociais? Combina-se os eventos aos quais cada membro da família está autorizado participar? São claras as explicações dos pais em casos de restrições sociais, dando oportunidade para que os filhos também se manifestem? Há persistência de todos em relação ao que é decidido para o bem da família?
Esses são questionamentos em torno dos quais pode ser organizado um processo de educação dos mais jovens no seio familiar. Essa organização da vivência exigirá que se acordem regras. Essas regras imporão limites a todos e pedem coerência para evitar regalias e descomprometimento dos demais. Os mais velhos ensinam pelo exemplo. Os mais novos aprendem pela confiança que adquirem na sabedoria dos pais. Em família, as contradições são mais facilmente descobertas. Isto exige regras claras e disciplina de todos para que se aprendam e cresçam pelo exemplo e num ambiente de confiança. Os “erros” deflagrados devem ser assimilados como parte do processo de crescimento, sobretudo em se tratando dos menos experientes. O apreço pela união familiar e a manutenção do clima afetivo entre seus membros devem ser uma busca permanente de todos – nos momentos de alegria ou nos momentos difíceis. Tais observâncias trarão vigor e o sadio florescimento das personalidades dos jovens no ambiente familiar.
Auto-reflexão: Na minha educação familiar, que regras deixaram maiores ensinamentos? Que cobranças me causavam desconforto? O que minha família cobrou de mim e que eu não pretendo cobrar de meus filhos? E o que eu cobraria e que não foi cobrado de mim? Por mais que uma regra seja boa, o modo como ela é imposta ou proposta, fará diferença na aceitação dela pelo grupo familiar? Quem na minha família tinha mais sabedoria para tratar de limites?
A educação familiar destina-se, em sobremaneira, ao aprendizado da convivência social. Essa educação solicita regras. Certa dureza imposta pela disciplina, como forma de cuidado e apreço, aliada a demonstrações de carinho e respeito, são indispensáveis a uma família bem constituída e funcional.
O Mestre Che Guevara adverte: “Tem que ser duro, mas sem perder a ternura, jamais”. Disse também: “Sem disciplina, não há revolução”. Frente a essas mazelas que atingem as famílias e a sociedade, se faz fundamental revolucionar com disciplinamento na família, na escola e na administração pública, com o exemplo emblemático daqueles que nos governam – supostamente lideranças do povo.

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